domingo, 2 de março de 2008

Auto Biografia

Acordei, tomei meus comprimidos com muita água, fui até a cozinha. Lá estava mamãe, lavando louça, num tarefa diária que tem se repetido há sabe-se lá quantos anos. Só que eu me lembre são 27 anos. Maçã, leite, cereal. Vou até a sala de jantar e me vejo olhando umas fotos velhas.. de quando éramos crianças... eu e minha irmã... Como eu era uma criança feia! Cabelos bagunçados, cara amarrada, esquisita. Já a mana, cabelos lisos, encaracolados nas pontas, louros escuros, pele branca, branquinha, rosto de boneca, sempre sorrindo, sempre feliz. Parece que nasceu sabendo que seria uma pessoa de sucesso. Inevitável as comparações. Lembro-me de minha mãe me dizendo "Aline, você tem que ser boazinha como sua irmã". Essa frase ecoa até hoje em minha mente, de forma tal que tudo o que eu faça, acabo me comparando com ela.

Começamos a dieta juntas. Eu com 16 anos e ela 13. Ela conseguiu emagrecer. Eu também. Ela nunca mais engordou. Eu sim. E muito. Quando acabei o 3º ano do colegial, não sabia o que queria fazer. Ela sempre soube que queria ser médica. Nunca lhe ocorreu outra coisa. Eu fiz inscrição para medicina, sem a mínima convicção de que passaria no vestibular. Fiz orientação vocacional: área de humanas, óbvio. Sempre fui boa na escola, em cálculos, mas simplesmente não me via no futuro fazendo algo com calculadoras, réguas, contas, etc... Vendo o trabalho da psicóloga, decidi que queria fazer o mesmo que ela. Passei no vestibular em 11º lugar, num total de 80 vagas para o curso..... Deveria, com a mais absoluta certeza, ter ouvido o meu pai quando ele me orientava a fazer cursinho por mais um ano, ou até mesmo dois. Era muito nova para tomar uma decisão tão importante. 17/18 anos é pouco para se saber o que se quer. Pelo menos no meu caso. A minha irmã sempre soube.

Fiz a faculdade, amando todas aquelas teorias sobre comportamento humano, psicanálise, psicoterapias, todos aqueles autores importantes e inteligentes que brilhavam aos meus olhos. Amava conhecer o funcionamento do cérebro humano. Odiava matérias como estatística ou metodologia. E assim foi por 2 anos e meio. Entrando no 3º ano, tive uma crise existencial e quase parei. Queria fazer medicina a todo custo. Por que eu queria? Simplesmente pelo fato de querer ou pra poder me comparar e ser igual à minha irmã? Acabei não fazendo nada e continuei o meu curso. Estágios sempre voltados à área de saúde. Em hospitais ou postos de saúde.

Ao fim da faculdade, vendi minha parte do que já tinha pagado pra formatura e fui pra SP fazer a prova da especialização em Psico-Oncologia num grande hospital. Não porque eu quisesse de paixão fazer isso, mas vi uma propaganda sobre o balcão da clínica da faculdade e bastou. A 1ª entrevista e o baile eram no mesmo dia. Um ano fazendo a pós e me encontrei fazendo ago que eu estava adorando. Fui para outra pós na área, dessa vez para pacientes de hospital geral. Não me recordo de ter passado por uma época tão feliz em minha vida. Acordava às 5h30 da manhã todos os dias, pegava lotação, metrô, dormia até chegar na estação, lotação de novo e assinava meu ponto na entrada do hospital às 8 hs. Passava o dia lá, almoçava lá. Depois, ia pra academia perto do hospital. Fazia musculação, natação.. Chegava em casa por volta das 22hs. Exausta, mas feliz.

Fiquei 5 meses desempregada, em completo estado de depressão. Nesse percurso entre hospitais, fiz alguns concursos e fui chamada para trabalhar por um ano como psicóloga de uma creche num bairro da zona oeste de SP. Bom salário, trabalho péssimo. Odiei. Não via a hora de acabar. Sabe o típico trabalho por $? Foi isso. Gostava das crianças, de algumas colegas de trabalho. Mas era de longe aquilo que eu queria fazer da minha vida. Graças a alguma coisa, a fila andou e a vaga efetiva do cargo foi aberta e ocupada por uma pessoa que estava à minha frente na lista do concurso. GRAÇAS A DEUS! Vim embora pra casa de mamãe passear, tirar umas férias. Nunca mais voltei. Abri consultório, não tinha paciente, foi difícil, papai pagando aluguel da sala, fechei o consultório. Arrumei um bico na área de eventos, passados uns meses fui chamada pra assumir um outro setor voltado pra área de Recursos Humanos, onde estou até hoje.

Aonde quero chegar com tudo isso? Com a aproximação da formatura da minha irmã, pego-me todos os dias repensando minhas escolhas, minha vida, minha profissão, meus sentimentos mais primitivos em relação a ela, que sempre foi o oposto de mim. Nem melhor (será??), nem pior. Apenas bem diferente.....

4 comentários:

Anônimo disse...

Não posso falar nada disso, vc sabe que me identifico com o q vc postou...
vim aqui pra te desajar uma semana linda, de muito sucesso eeeee rumo À proxima mudança de casa decimal heinnn... hehehe

bj bj

Anônimo disse...

Aline, isso 'e normal. Eu tenho meio um trauma, por ser filha do meio. Aquela que esta sempre tentando mostrar o que tem de melhor. E sofre por isso.
Carencia. Esse é o meu nome. Mas sabe, no fundo, a gente acaba se conhecendo.
E hoje, mesmo achando que "minha irma era protegida", "minha outra irma era queridinha".. eu fui a primeira a sair de casa. Mas hj, eu sinto que eu sou a mais querida de todas. E me arrependo de algumas coisas que falei/fiz. Acho que ter irmaos é bom e é complicado. Mas agora é a hora da força, mostre que vc tem personalidade, e que as coisas serào do seu jeito. Um beijo e boa sorte amiga!

Cristeli disse...

Oie...primeira vez q venho aki e adorei o jeito q vc escreve...muita coisa q vc sente...tbem sinto...vou vim mais seguido aki.
Abração querida
Cristeli

Aulas Particulares disse...

Pooooxa... O q vou te falar nao sei se ajuda ou atrapalha(!!!), mas ja comentei com vc que estudei um semestre de psicologia e sabe, eu tbm amava e amo todos os pensadores , as teorias, as terapias, etc da psicologia... Ainda voltarei a estuda-las... Mas minha realização, meu prazer, minha motivação são as crianças... Eu so conseguia me ver trabalhando como psico para crianças, seja em situação de risco, judicial, escolas, bebes, sei la... Então resolvi encarar minha verdadeira profissão que é lecionar e alfabetizar os pequenos... Tbm me sentia num mato sem cachorro, no caminho mais errado de minha vida. Tbm vejo a formatura de minhas amigas se aproximando e eu apenas começando, mas sabe, me sinto feliz... É incrivel, eu sempre sentia um vazio, uma insegurança que não sabia explicar... Agora sei o que era... E me encontrei... Graças a Deus posso dizer que sou feliz agora...
Um bjão pra vc, torço por vc, de coração...